Revista SEMEAR 1  
   
OS REPUBLICANOS DA RUA DO PRÍNCIPE
 

Luiz Fagundes Duarte
Universidade Nova de Lisboa

Assumindo-me eu como um crítico textual que se tem ocupado da obra de Eça de Queiroz, cada vez mais me vou convencendo de que é praticamente impossível falar sobre o que quer que seja que de importante se tenha passado na vida cultural portuguesa da segunda metade do século XIX - sem que a palavra de Eça de Queiroz seja invocada: se Antero de Quental foi o centro de uma das mais brilhantes gerações de nossa história cultural, Eça de Queiroz foi o filtro por que passaram todas as respostas que essa mesma geração deu aos estímulos intelectuais (mas também sociais) que mais a impressionaram. Ou seja, na obra de Eça de Queiroz encontramos eco de tudo quanto de intelectualmente estimulante se passou em Portugal enquanto ele viveu - e um desses ecos resulta, sem sombra de dúvida, da obra, mas sobretudo da personalidade, de Antero de Quental.

Uma vez mais, não consigo resistir à tentação de olhar para Antero de Quental através dos olhos de Eça de Queiroz: no meu texto "Antero por Eça: o Príncipe visto e revisto por um 'Actor do Teatro Académico'"[1], ocupei-me dos retoques dados por Eça no retrato que fez de Antero, ao passar da primeira para a segunda versão do seu texto "Um Génio que era Santo", escrito em 1894 para o In Memoriam (1896)[2]; depois, inventariei, nos materiais do autógrafo de A Capital, alguns dos pedaços de Antero, enquanto jovem mentor de uma geração de estudantes "extremamente literários", utilizados por Eça para compor a personagem Damião, que na trama deste romance funciona como referência cultural e ideológica de Artur Corvelo, personagem esta que por sua vez foi em parte feita à imagem e semelhança do próprio Eça de Queiroz[3]; agora, ocupar-me-ei do fantasma de Antero, enquanto homem de acção política, que perpassa nos mesmos materiais autógrafos - espécie de alma-penada vagando algures entre um ritual maçónico e a sensaboria de um club republicano-socialista, onde a presença ideológica de Damião/Antero se caracteriza precisamente pela sua ausência física.

Antes, porém, acho conveniente dar uma vista de olhos pela acção anterior de Damião, nela salientando o que o aproxima (e afasta) de Antero de Quental; para isso, peço licença para recorrer à parte do que já escrevi em "Pedaços de Antero na génese d'A Capital de Eça de Queiroz", onde julgo ter demonstrado, a partir da minha própria investigação, mas também apoiado directamente em João Gaspar Simões e indiretamente em António José Saraiva, que a personagem Damião terá sido, pelo menos na sua fase de juventude, decalcada sobre o "Príncipe da Mocidade", Antero de Quental.
João Gaspar Simões afirma que

todos os rapazes de A Capital são inspirados em figuras reais. Damião, por exemplo, é Antero de Quental. [...] Tudo quanto Eça então conhecera da vida de Lisboa - literatos, revolucionários, boémios, prostitutas, elegantes - se projecta no quadro da existência do seu herói. [...] Nazareno podia ser Salomão Sáraga. O Matias, [...] esse era, sem dúvida, José Fontana [...] Os amigos que o rodeiam [a Artur Corvelo], os amigos que o conspurcam, são experiências dele próprio, romancista[4].

Por seu lado, e adoptando uma posição muito menos linear e decerto mais cautelosa, António José Saraiva reconhece que, quando Eça de Queiroz se refere (no In Memoriam, n'Os Maias e n'A Capital) ao idealismo e aos fantasmas criados pelos jovens estudantes da Coimbra do seu tempo, nas suas discussões metafísicas,

fala em nome de toda a sua geração; mas temos razões para pensar que ele está generalizando um facto que se deu muito especialmente com ele próprio, [mas] nem por isso deixa de ser verdade que o ambiente que Eça respirou em Coimbra não é o de Antero ou de Teófilo Braga[5].

Tudo isto pode ser verdade, mesmo que (e necessariamente porque) modificado pelas liberdades da ficção; o próprio Eça encena esse drama do escritor que alimenta a sua própria imaginação com a vida de outros seres, ao descrever, na primeira versão d'A Capital, o modo como Artur Corvelo construía as personagens do seu drama Amores de Poeta a partir de si próprio e das pessoas que conhecia:

compoz o typo do poeta, de tudo o que achava em si, de mais sentimental, de mais revolucionario [...] E os seus plebeus, erão a reprodução dos seus amigos de Coimbra, idealizados: alli sob o nome de Jacome Vieira, apparecia Damião, chefe de partido, tribuno glorioso: o illustre Fonseca, era um medico d'uma sciencia vasta, d'uma honradez heroica: e lá vinha, no segundo acto o Humanitario Vilhena, amigo da Polonia, sob as feições d'um engenheiro, cujas palavras fazião em redor semi-circulos d'extasi. [cf. ms. "A", 31v, 32][6].

Encontramos nesta passagem, primeiro, uma personagem que, enquanto autor, se utiliza a si próprio como personagem da sua ficção. Nesta ficção dentro da ficção, vem depois uma personagem de drama (Jácome Vieira) feita à imagem de uma suposta pessoa que é personagem de um romance (Damião), que por sua vez é em grande parte feita à imagem de uma pessoa real (Antero, que fora, de acordo com Eça, o melhor verbo da Academia, e que viria a ser presidente de uma estrutura política com características partidárias - a Liga Patriótica do Norte) - enfim, uma personagem idealizada por um autor-personagem, a partir de uma personagem idealizada por um autor-pessoa, a partir de uma pessoa também ela idealizada... Curiosamente, Eça não se mostra tão directo na última versão do romance, mas concede a Artur Corvelo a consciência de que as personagens do seu drama representam a realidade por ele observada, e de que, uma vez divulgadas, elas poderão influir nessa mesma realidade: "Não duvidava então que o seu drama faria um escândalo social", diz o narrador [imp., "E", 63A'].

Um estudo aprofundado da técnica de construção das personagens em Eça de Queiroz poderá mostrar que as coisas talvez não sejam assim tão mecânicas. Porém, um facto parece evidente: a descrição que Eça faz, no In Memoriam (em que é suposto adoptar uma perspectiva histórica), do "ambiente filosófico" da Coimbra dele e de Antero de Quental, coincide, quase ipsis verbis com a que faz, em A Capital (e já numa perspectiva ficcional), da "cavaqueira filosófica" da Coimbra de Artur Corvelo e de Damião: temos, em ambos os casos, os mesmos lugares, os mesmos tipos humanos, as mesmas angústias metafísicas, os mesmos autores, os mesmos livros - e a mesma cabra da Universidade. Mas isso não é o que mais me interessa agora: o que me interessa, sim, é o que se passou depois, ou seja, o modo como evoluíram pela vida fora as personagens desenhadas por Eça na sua relação com as pessoas que lhe estavam por baixo.

Utilizarei, para isso, um testemunho autógrafo e ainda inédito do processo genético de A Capital (o manuscrito "A", que contém a primeira versão completa do romance), porque é nele que, por estar menos trabalhado e portanto mais próximo do discurso espontâneo, mais nitidamente se notam aqueles que poderão ser tidos como pedaços do fantasma de Antero na obra ficcional de Eça de Queiroz, e que foram esbatidos nos testemunhos e campanhas de correcção posteriores, documentados no manuscrito "B" e no impresso "E", a que pontualmente farei referência numa perspectiva comparativa.

Ao ir para Coimbra, Artur Corvelo foi entregue aos cuidados de um estudante mais velho, muito abrutalhado, filho de um amigo da família, o Teodósio. No manuscrito "A", o ambiente em que Artur se integrou começa por ser assim descrito:

Por um accaso ironico, no seu segundo anno, Theodosio foi ser companheiro de casa d'estudantes extremamente litterarios - que tinhão fundado um semanario intitulado o Pensamento. A casa era instructiva como uma Academia: até alto, ressoavão os discursos litterarios, e a atmosphera do quarto sempre cerrado - porque o chefe do grupo, o Damião - receava horrivelmente correntes d'ar - estava saturado de fumo de cigarros e de citações d'authores" [ms. "A", 6v] [...]. Foi n'este gruppo que Arthur entrou - por que Theodosio, - para proteger, melhor o seu caloiro, arranjou-lhe um quarto, no Cenáculo. [ms. "A", 7v].

Com efeito, se confrontarmos estes dados com a biografia de Antero, verificamos que, de acordo com Anselmo Andrade, "em Coimbra chamavam Cenáculo à casa de Antero"[7], bem como encontramos um jornal por ele dirigido e intitulado O Acadêmico (por volta de 1859-1860), de que o Pensamento poderá muito bem ser a máscara ficcional (recorde-se, a propósito, que existiu entre 1870 e 1872 um periódico intitulado O Pensamento Social, de cuja redacção Antero fez parte[8]. Além disso, no impresso "E" o "Cenáculo" é localizado na Couraça de Lisboa, e é constituído por um grupo de rapazes extremamente litterarios, redactores ardentes do jornalzinho o Pensamento. Esta pequena Revista semanal fora originalmente fundada n'um alto espírito de fraternidade moça para crear recursos ao Taveira, rapaz extremamente pobre, e o grande lyrico do gruppo, mas ultimamente era derigida na realidade pelo Damião, o illustre Damião, que tendo levado um R repetia o seu quarto anno. [imp. "E", 15A].

O decalque de Damião a partir de Antero torna-se mais evidente na passagem da primeira para a segunda versão: com efeito, se descontarmos os pormenores que têm a ver com a ficção, no ano de 1862-1863, quando repetia o seu 4º ano, Antero viveu, de facto, com os companheiros, numa casa sita na travessa que ligava os Palácios Confusos à Couraça de Lisboa[9], o que nos permite supor que se Eça não estava a retratar Antero, estava pelo menos a pensar nele quando assim construiu o tipo de Damião e seus colegas.

Há uma certa crítica, mesmo velada, que pode de certo modo beliscar o carácter da personagem - e da personalidade que referencia - o que me parece passar-se quando Damião justifica, perante os colegas, a admissão do bruto Teodósio no Cenáculo:

- O Theodosio é a imagem resumida da Sociedade: á simples e primitiva expanção da força bruta, succede-se, a lenta penetração na vida intellectual: o musculo dá logar á idea. O bruto, enjeita a sua grande ferocidade para o anjo. Ter Theodosio por companheiro é estudar a historia da humanidade: a continua transformação, a evolução do appetite ao raciocinio." [ms. "A", 7].

Tratava-se, com efeito, de uma justificação filosófica, de resto muito anteriana, porquanto a verdadeira e mais prosaica razão era uma outra:

Havia alem d'isso na educação de Theodosio uma utilidade: elle tinha uma mesada consideravel - o que o habilitava a comprar livros: e os redactores do Pensamento, quando desejavão uma obra mais cara, aconcelhavão-na a Theodosio, - elle comprava-a, elles lião-na [ms. "A", 7v].

Porém se Damião, na sua fase de Coimbra, foi construído com muitos pedaços de Antero, existem nas fases posteriores desta personagem, em Lisboa, mas já sugeridos no seu retrato de juventude, como se nota nas passagens acima transcritas, muitos outros pedaços vindos de outrem - que não certamente de Antero. Ou, pelo menos, não do Antero real.

Artur Corvelo, despeitado por não se conseguir integrar na sociedade lisboeta, onde era explorado e fazia figura de urso, e para dela se vingar, tenta aproximar-se dos republicanos, após ter conhecido por acaso um deles, o Nazareno, a quem se apresenta como amigo íntimo de Damião, que era já então personagem importante no meio; a invocação da amizade de Damião (então temporariamente ausente de Lisboa), a afirmação de vagos princípios oscilando entre o republicano e o socialista, mas sobretudo o facto de se dizer influente na redacção do jornal O Século (onde os republicanos desejavam ver publicada uma recensão laudatória a um livro que Damião publicara recentemente, A Renascença em Portugal [cf. ms. "A", 122v]), levam a que Artur seja admitido no club republicano - que, significativamente, ia inaugurar uma nova sede à rua... do Príncipe.

No seu romance, Eça de Queiroz descreve pormenorizadamente duas sessões do club republicano: uma, aquando da inauguração da nova sede e da admissão de Artur Corvelo; outra, quando Artur é expulso devido às suas supostas ligações à aristocracia e à burguesia ociosa (e por não ter conseguido a publicação em O Século do artigo sobre o livro do Damião). Nestas duas sessões, mas sobretudo na primeira, assistimos a discussões ideológicas que ameaçam dividir o club em partidos logo à nascença: os republicanos, por um lado, que na opinião dos socialistas pretendiam "substituir um rei constitucional por um presidente jacobino", e os socialistas, por outro lado, a quem os republicanos chamavam comunistas, e que pretendiam a "revolução democrática" [ms, "B", 115v]; tentando uma reconciliação entre socialistas e republicanos, Matias (em que, recorde-se, João Gaspar Simões vê uma representação de José Fontana) afirma que

este club não tem exclusivismos; acceita todas as opiniões democraticas, que se appresentem em opposição ao Regime Constitucional [ms. "A", 113; cfr. ms. "B", 117].

Esta discussão é semelhante em ambos os manuscritos a nível do conteúdo; mas, no manuscrito "A", Eça põe o secretário do club a ler a acta da sessão anterior, que começava por "Acta da sessão de 6 de Outubro de 1878", tendo depois o ano sido riscado e substituído por pontinhos. Ora, esta data, e a sua posterior anulação, são significativas: Antero de Quental esteve, de facto, ausente em França entre os começos de Junho e o dia 8 de Outubro de 1878 (o que dá cobertura referencial à ausência de Damião na referida reunião do club republicano), e em carta de 10 de Outubro a Oliveira Martins confessa-se desgostoso com a confusão ideológica que reina nos centros republicano-socialistas de Lisboa, onde nascera a idéia de o candidatarem a deputado por Alcântara, afirmando que talvez seja "ocasião de me explicar sobre a delicada distinção entre socialista e republicano, e de sair, uma vez por todas, dum equívoco que me pesa"[10]. Esta opinião é reforçada em carta a Alberto Sampaio, onde Antero se refere a "uns centros republicanos que não sei bem o que são", e a quem ameaça "com uma recusa pública nos jornais" caso insistam em o apresentarem como candidato republicano.[11]

Se as coisas, na realidade, se tiverem passado como Eça de Queiroz as descreve em A Capital, Antero teria carradas de razão: as confusões já não seriam apenas entre socialismo e republicanismo, mas tocariam também os próprios ritos maçónicos; vejamos alguns aspectos do cenário das reuniões dos republicano-socialistas.

Temos, em primeiro lugar, e no manuscrito "A", o modo como Artur Corvelo foi convocado para a sua primeira reunião no clube: um emissário desconhecido entrega-lhe um bilhete (que começa por "Camarada" e termina com um "Queime este bilhete") a marcar hora e local de encontro, e exige um recibo. No local da reunião, e antes do início, Jácome Nazareno distribui "apertos de mão mudos, maçónicos"; Matias discorre sobre a mulher adúltera de um conhecido seu, a qual deveria ser sindicada à polícia, numerada e colocada sob o controle da higiene; informa Artur de que recebeu carta de Damião a dizer que tem um novo livro quase pronto, manifesta-se contra o fumo de tabaco na sala, corrige a fórmula da abertura "Meus senhores" para "Cidadãos", e por fim tenta estabelecer uma síntese complicada, que gera alguma controvérsia, entre o jacobinismo e o socialismo; na assembleia, com umas 15 ou 18 pessoas, ninguém parece operário: "alguns tinhão luvas; quasi todos chapeu alto"; um dos admitidos declara-se socialista, afirmando que odeia tanto o constitucionalismo como o jacobinismo, curvando-se de seguida, de mão ao peito, num acto de coragem, a aguardar o veredicto dos republicanos; um dos membros do clube, depois de em sessão anterior ter proposto que fossem usadas senhas e contra-senhas no acesso às reuniões, sugere que os novos membros deveriam fazer um "juramentozinho", e propõe que sejam prestadas contas dos dinheiros do club; um homem feio faz o elogio dos mártires da Liberdade e da República, desde Prometeu até ao seu próprio tio, um jacobino assassinado pelos miguelitas, e propõe que as paredes da sala sejam decoradas com os retratos de todos eles - ideia que foi recusada por não caberem.

Todos em tão poucas paredes, e sobretudo por ser difícil arranjar o retrato da maior parte de tantos mártires; outro homem exige que se coloque um guarda-vento na porta, por causa das correntes de ar; e, finalmente, um outro oferece uma cabeça da Liberdade para colar por cima da mesa da presidência [cf. ms. "A", 109-117v].

Quando Artur Corvelo chegou, com atrasos, à segunda sessão, Matias lia o Programa que, na opinião do Nazareno, era "a obra mais notável deste século em Portugal", e que foi aplaudido com bravos, "como no final de árias briosas", enquanto numa cervejaria ao lado uma rabeca rangia o can-can da Bela-Helena; e Artur acabou por ser expulso, no meio de uma confusão que Matias tentou controlar a toques de uma campainha "zelosa da gravidade republicana" [cf. ms. "A", 133-136v].

Mas Damião estava ausente em ambas as reuniões. No entanto, quando dias mais tarde Artur o viu no Rossio, conversando com o Nazareno, e correu para ele de braços abertos, Damião repeliu-o dizendo que não falava a canalhas; Artur até pensou em atirar-se ao Tejo.

Esta portentosa caricatura é em parte adoçada e em sua parte refinada no manuscrito "B": aqui, em vez de bilhete mandado por emissário, foi o próprio Nazareno que pessoalmente convidou Artur para a reunião; as cadeiras da sala faziam lembrar as do Asilo; os apertos de mão do Nazareno eram ainda mudos, mas já não maçónicos; o discurso de Matias sobre a mulher adúltera completou-se com um sapientíssimo "expulsava-a de casa, sem cólera, e recomeçava tranquilamente a trabalhar"; apareceu uma nova personagem, um comerciante rico, que introduzia no club aquele tom de respeitabilidade, de estabilidade, de ordem, que a Propriedade dá às ideias que apoia: a cooperação daquele proprietário, era a evidência gloriosa da practibilidade da república: ele representava adesão da burguesia - e a sua pessoa dava aos republicanos da plebe, aquele orgulho que dava aos deputados do Terceiro-Estado, em 89, a presença nos seus bancos, dos fidalgos da casa de Noailles ou da casa de Montmorency; a sua presença tirava ao club a sua feição de grupo inquietante de proletários descontentes: e as teorias mais exaltadas tinham a seriedade de legislações prudentes - quando para as escutar se via aquele honrado lojista, de ar benigno e paterno, com dinheiro no banco, inclinar-se, fazendo com a mão gordalhufa concha em redor das orelhas cabeludas. A sua assiduidade ao club era - pontual - e todavia as suas ideias pareciam nebulosas [ms. "B", 111v -112].Este cavalheiro, que pronunciava "club" como "clúbio", foi o tal que ofereceu uma cabeça de gesso, que a sua senhora dizia que era de Minerva, para "figurar como um busto da República"; a assistência, geralmente magra, não tinha nas fisionomias "as expressões exaltadas e sinistras que ele [Artur] imaginara", era composta por gente de secretarias, dois padres, um militar, nenhum operário - e todos "pareciam sentir uma indefinida vaidade daquele aparato de sessão, gozando a ficção parlamentar"; e enquanto o inventariador dos mártires da liberdade falava, na sala de fora discutiam-se muitas coisas, atacavam-se ministros, jornalistas, o administrador do Banco Central, constatava-se a "miséria dos operários" face à "indignidade dos ricaços", desejava-se a república, falava-se mesmo de república federativa - e a propósito de Espanha houve até quem preferisse as espanholas... [cf. ms. "B", 107v-128].

Trata-se, claro, de caricaturas queirozianas. Mas, sem querer estabelecer relações forçadas entre realidade histórica e ficção, encontramos nestas passagens de A Capital, talvez, algumas daquelas confusões que, como já foi referido mais acima, Antero queria esclarecer; e poderemos também encontrar alguns ecos da realidade histórica, embora com referências batalhadas; por exemplo, por esta altura (1878), Antero, tal como Damião, trabalhava num livro, uma Teoria da Religião que nunca chegou a terminar e de que não nos chegou qualquer manuscrito.[12]

Mas Eça de Queiroz sabia até aonde podia levar a caricatura: aqui, quem é caricaturado não é Antero (Damião raramente aparece como personagem directamente actuante - é mais uma referência do que uma personagem propriamente dita), mas um determinado meio ideológico-social em que ele interveio e do qual, em certo sentido, foi vítima. Assim, o Damião-Mestre da juventude passa como uma personagem presente pela ausência, e portanto incólume, pelas confusões ideológicas do quadro político português da época, apenas aparecendo como personagem directamente actuante para repelir a mediocridade de Artur Corvelo; no derradeiro capítulo de seu romance, Eça volta a se referir a Damião para, através de uma carta de Melchior a Artur (finalmente retornado à província de onde nunca deveria ter saído), nos informar que ele ia ser um dos redactores de um novo jornal republicano, O Futuro [ms. "B", 256].
Mas talvez, nesta altura, já Damião tivesse deixado de ter qualquer relação com Antero. O Partido Republicano parecia prosperar nas suas confusões - e Antero de Quental, em declaração de 28 de setembro de 1879, decidira aceitar candidatar-se a deputado pelo Partido Socialista.[13]
As coisas tinham-se, finalmente, esclarecido.

Notas

  • 1 "Antero por Eça: o Príncipe visto e revisto por um 'Actor do Teatro Académico'". Actas do Congresso Anteriano Internacional. Ponta Delgada: Universidade dos Açores, 1993, p. 209-17.
  • 2 In Memoriam. Antero de Quental. Porto: Mathieu Lugan Editores, 1896.
  • 3 "Pedaços de Antero na génese d'A Capital! de Eça de Queiroz". Antero de Quental e o Destino de uma Geração [Org. e coord. de Isabel Pires de Lima]. Porto: Edições Asa, colecção "Perspectivas Actuais" / Ensaio, 1993, p. 119-26.
  • 4 Vida e Obra de Eça de Queiroz. Lisboa: Bertrand, 3ª ed, 1980, p. 456 e 457.
  • 5 As Ideias de Eça de Queiroz. Lisboa: Bertrand, 1982, p. 66-68.
  • 6 Uma descrição pormenorizada deste manuscrito e dos restantes materiais que constituem o complexo autógrafo deste romance, bem como as siglas que os identificam, é por mim feita na introdução à edição crítica de A Capital!. Lisboa: Imprensa Nacional/Casa da Moeda, Edição Crítica das Obras de Eça de Queiroz, 1992.
  • 7 "O sonho do Poeta". In: In Memoriam, op.cit. (citado por José Bruno Carreiro, Antero de Quental. Subsídios para a sua Biografia, II. Lisboa: Instituto Cultural de Ponta Delgada, 1948, p.107). João Gaspar Simões afirma, erradamente, que "Eça transpunha para Coimbra o Cenáculo que frequentara em Lisboa" (cf. João Gaspar Simões, op.cit., p. 456); ora, o "Cenáculo" de Lisboa não parece ter nada a ver, sobretudo se tivermos em conta a maturidade dos seus membros, com o grupo estudantil de Coimbra a que Eça pertenceu; além disso, como acabamos de ver, a designação "Cenáculo" já fora utilizada em Coimbra e reportada à casa onde vivia Antero.
  • 8 Ana Maria Almeida Martins, org., Antero de Quental, Cartas. Lisboa: Universidade dos Açores / Editorial Comunicação, 1989, vol. I, p. 556-557.
  • 9 Pedro Eurico [Pinto Osório]. Figuras do Passado. Lisboa, 1915, p. 89 (citado por José Bruno Carreiro, op.cit., p.170).
  • 10 Antero de Quental. Cartas, I. op.cit., p. 446.
  • 11 Id., ibid., p. 447.
  • 12 José Bruno Carreiro, op.cit., 1948, p. 78.
  • 13 Antero de Quental. Cartas, I. op.cit., p. 470.

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