Revista SEMEAR 3  
   
ARCO DE TRIUNFO: obra inacabada
do Engenheiro Álvaro de Campos

 

Cleonice Berardinelli
PUC-Rio / UFRJ

Em 1959, ao receber, com dedicatória amiga de Helena Cidade Moura, a edição de Orpheu I (fevereiro 1915), li ao fim da Ode Triunfal, mas sem muito atentar, o que Fernando Pessoa acrescentara: “Do Arco de Triumpho, a publicar”. Esta referência, quase esquecida, fez-se presente quando, pelos anos 80, ao estudar com detença “A Passagem das Horas”, verifiquei que este longo e importante poema da fase sensacionista de Campos também se incluía no mesmo volume.

Ao escrever “volume”, afigura-se-me ter quase criado a realidade palpável de um livro que, na verdade, não passou de um projeto (feito, refeito, estendido, reduzido) de um sonho assiduamente acalentado.

É pena que as referências a ele não sejam, em sua quase totalidade, datadas; mesmo assim, temos uma data provavelmente inicial - 1915, ano de Orpheu I - e uma data mínima final – 1925 –, que se lê numa nota datilografada onde Pessoa informa:

As cinco odes que formam este livro foram escriptas de 1914 a 1916 [...] As theorias estheticas, com que se coadunam estas cinco odes estão expostas vagamente no meu Ultimatum, de 1917, e no meu estudo APONTAMENTOS PARA UMA ESTHETICA NÃO ARISTOTÉLICA, de 1923, e publicado na Athena em 1925.

De 1915 a 1925, durante dez anos, no mínimo, o Poeta conviveu com o livro ao qual se refere mais de dez vezes, como pude comprovar com a ajuda do precioso fichário dos projetos pessoanos, organizado pela perícia de Teresa Sobral Cunha, a quem devo um competente auxílio na decifração dos textos de Álvaro de Campos.

Pretendeu Pessoa incluí-lo entre as publicações de uma editora que planejava, COSMÓPOLIS, definindo-o: “Arco de Triumpho. – Poemas com um Prefacio-Manifesto – Alvaro de Campos”; inseriu-o num “Projecto de Cadernos de Reacção Pagã”, onde é o sétimo da lista; num projeto de um volume para uma colecção intitulada “Aspectos”, constante de cinco itens: Alberto Caeiro, Ricardo Reis, António Mora, Alvaro de Campos e Vicente Guedes, onde a Alvaro de Campos é atribuído o “Arco de Triumpho”; numa “List of books”; ao fim de uma lista de “Obras autonymas”, “Meio autonymamente”.

Já em 1915 o Poeta escrevia a Sá-Carneiro sobre o próximo lançamento do livro, que deveria ser sensacional. Infelizmente, não conhecemos suas cartas ao amigo e confidente, mas a resposta deste, aprovando e sugerindo, nos esclarece a respeito:

Genial a forma de publicar o Arco de Triumpho. Anuncios, muitos anuncios: amostras de papel da Armenia (para defumar), cartões embebidos em perfumes que anunciem, amostras de fazendas até, se possivel.

Do fim de 1917 data o primeiro dos projetos do livro, encontrados no Espólio III: é um excelente manuscrito onde, a seguir ao título e nome do autor, “Arco de Triumpho - Alvaro de Campos, 1917, ad finem” -, estão inscritos os nomes das peças que dele fazem parte: são doze itens, sete dos quais publicados depois pela Ática e pela Aguilar, entre os de Álvaro de Campos. Ei-los: I. Trez sonetos (os dois que apareceram na edição da Aguilar, preparada por Maria Aliete Galhoz – “Quando olho para mim não me percebo”, “A Praça da Figueira de manhã” –, e o muito conhecido, desde a edição da Ática: “Olha, Daisy: quando eu morrer tu has-de”); II. Opiário; III. Carnaval; IV. Ode Triumphal; V. Ode Marítima, VI. Ultimatum. VII. Saudação a Walt Whitman; VIII. A Passagem das Horas; IX. Ode Marcial; X. A Partida; XI. Fragmentos de affirmações; XII. Arco de Triumpho. Os itens VI e XI são dois textos em prosa: o VI, amplamente conhecido, e o XI, que conterá, possivelmente, os Apontamentos para uma Esthetica não Aristotélica, àquela altura ainda talvez em estado fragmentário.

Dois outros projetos manuscritos repetem grosso modo este. No primeiro, os três primeiros títulos – Trez sonetos, Opiário, Carnaval – estão reunidos sob o nome geral de Autoscopia ; em seguida vêm as cinco odes, dois títulos desconhecidos e finalmente A Partida. O segundo elimina, como este, os textos em prosa e, num primeiro movimento, os sonetos e Carnaval: em seguida retoma-os, acrescentando-lhes os sonetos de Barrow-on-Furness e Lisbon Revisited (1923), ano a partir do qual pode situar-se este projeto. Após estes três projetos manuscritos situa-se o mais curto e mais recente, acima citado, ao qual Pessoa se refere em nota escrita depois de 1925, como se pode facilmente inferir da transcrição da mesma, pouco atrás.

Há ainda uma meia dúzia de menções ao livro, quase sempre explicitamente atribuído a Álvaro de Campos; uma delas contém esta indicação: “Sensacionismo, Alvaro de Campos: Arco de Triumpho – cinco apotheoses em verso (Ao mestre – Alberto Caeiro)”.

Além destes, há em Autoscopia dois títulos até então inidentificáveis. Destes poemas, dois coincidentes com os do testemunho anterior – Carnaval e A Partida – e um não coincidente – Arco de Triumpho – permaneciam, até 1990, inéditos.

Quando, em 1986, com o intuito de fazer a edição crítica dos poemas de Álvaro de Campos,[1] comecei a inclinar-me sobre os originais de Pessoa – muito especialmente aqueles que eram explícita ou implicitamente deste heterónimo –, senti-me atraída pelo desejo de realizar, em parte, ao menos, o belo sonho do Poeta, pondo este conjunto de textos em verso (já que era meu propósito editar apenas a sua poesia) à entrada do edifício poético construído pelo engenheiro-poeta, ao qual se tem acesso atravessando o arco, sentindo-nos nós, leitores, alguns daqueles que passam – toda a gente e todas as coisas –:

Minha imaginação é um Arco de Triumpho.
Por baixo dela passa toda a Vida.
[...]
Passam todas as classes sociaes, passam todas as formas de vida,
E no momento em que passam na sombra do Arco de Triumpho
São momentaneamente um triumpho que eu os faço ser.

É por baixo da sua imaginação, à sombra dela, que todas as coisas passam, no mágico momento em que o poema os cria, por baixo desse arco que é ponte entre Deus e o mundo, constituído este de representações abstratas do que existe e do que nem chegou a existir:

O Arco de Triumpho da minha Imaginação
Assenta de um lado sobre Deus e do outro
Sobre a faina de todas as horas, as sensações de todos os momentos
E as rapidas intenções que morrem antes do gesto. ;

desse arco de que o Poeta é a figura triunfal, “Que sahe do Arco e lhe pertence”, que sente que é “o Arco, e o espaço que elle abrange”,

E toda a gente que passa,
E todo o futuro da gente que passa,
E toda a gente que passará
E toda a gente que já passou.
[...]
Mas eu próprio sou o Universo,
Eu próprio sou sujeito e objecto,
Eu próprio sou Arco e Rua,
. [...]
Realiso Deus numa architectura triumphal
De arco de Triumpho posto sobre o universo,
De arco de triumpho construído
Sobre todas as sensações de todas as sensações...

Os cinco versos finais resumem o que o leitor vai encontrar no volume, uma vez transposto o limiar:

Poesia do impeto e do giro,
Da vertigem e da explosão,
Poesia dynamica, sensacionista, que silva
Pela minha imaginação em torrentes de fogo,
Em grandes rios de chuva, em grandes vulcões de lume.

Eis a síntese da poesia sensacionista de Álvaro de Campos, toda contida neste livro – ou quase toda, pois há ainda um belo e bastante longo poema (impresso desde a Ática), cujo incipit é “Afinal, a melhor maneira de viajar é sentir”, que com razão poderia nele estar incluído, até porque o seu segundo verso é o mesmo que aparece duas vezes em A Passagem das Horas – “Sentir tudo de todas as maneiras” –, além de estar na prosa teórica de Álvaro de Campos e em O Livro do Desassossego, de Bernardo Soares. Embora não seja datado nem tenha atribuição de autoria no testemunho, situei-o, por esses motivos, na minha edição como o primeiro da segunda seção (poemas com atribuição e sem data). Teria, como se viu, bastantes razões para incluí-lo no Arco de Triumpho, mas seria alterar o projeto a que quero ser fiel.

Alguns dos poemas do Arco, no entanto, não pertencem a este grupo de textos que se afirmam sensacionistas. Sobre o Opiário, é o próprio Pessoa que diz nele querer dar um Campos “em botão”, antes de conhecer Caeiro, e creio que se podem pôr ao lado deste os três primeiros sonetos, com algumas restrições, e, sem dúvida, Carnaval. São textos fortememte marcados pela influência de Sá-Carneiro e, através deste, de Cesário Verde. Quanto aos três poemas intitulados A Partida, eu diria que fazem parte, por antecipação, da maneira definitiva de Campos, que se afirma pelo começo dos anos 30, depois do surto sensacionista, embora apresentem fortes marcas do sensacionismo. Estaria lá, talvez, a causa do afastamento destes quatro títulos do que se pode chamar a última versão proposta por Pessoa para seu livro, o qual não conteria senão as cinco odes.

Volto aqui a meu sonho de realizar o sonho de Pessoa e volto a debruçar-me sobre o material que antes repousava na tão renomada “arca” do Poeta e hoje está na Biblioteca Nacional de Lisboa, constituindo o Espólio III – milhares de papéis deixados pelo poeta, classificados e cuidadosamente conservados e catalogados. Eu tomara conhecimento, através de uma comunicação de Teresa Rita Lopes, em um Congresso em São Paulo, do projeto de 1917, e a seguir consultara os arquivos dos projetos de Pessoa, organizados por Teresa Sobral Cunha, onde encontrara muitos outros.

Mais que todos, aquele que me parecia o primeiro projeto me seduziu, talvez porque nele encontrasse títulos de poemas desconhecidos, talvez porque correspondesse ao primeiro momento do desejo acalentado. Para realizá-lo, era preciso encontrar Carnaval, A Partida e o Arco de Triumpho.

Pus-me a pesquisar metodicamente o espólio de Pessoa: sob as cotas 69 e 70 estão quase todos os poemas editados pela Ática – só de dezoito ali não se encontraram os testemunhos. Passei em seguida à cota 71 e sou incapaz de transmitir a emoção com a qual li, na quarta folha, um texto de quarenta e seis versos datilografados, sem correções, que cobriam toda a página e se completavam com alguns outros, manuscritos, escritos ao pé da página e, verticalmente, na margem esquerda. O incipit do poema era “Minha imaginação é um Arco de Triumpho”.

Cheia de esperança, prossegui meu caminho ao longo dessa fascinante estrada 71 onde, a cada paragem – cada nova folha – eu passava da surpresa à admiração. Assim, cheguei ao número 16, manuscrito: seu título era – e eu não acreditava em meus olhos – A Partida. Alguns passos adiante e o título se repete; outros passos ainda, e eis um terceiro poema do mesmo nome.

É de partida que se fala na Ode Marítima e o afastamento do navio que deixa o cais desperta no Poeta uma profunda angústia metafísica. Nestes três novos poemas, a viagem tem a Morte por destino. “Agora que os dedos da Morte, á roda da minha garganta / Sensivelmente começam a pressão definitiva” diz o Poeta e, voltando-se para trás, apercebe-se da falência de sua própria vida. Apela para o mestre, Alberto Caeiro, que conheceu e logo abandonou. Arrepende-se e “volt[a] a [s]eu remorso sadio”. Os primeiros versos do texto seguinte são uma saudação ao universo, no melhor estilo sensacionista:

Ave atque vale, ó assombroso universo!
Ave atque vale, de que diversa maneira
É que eu te verei, e será definitivasmente,
Se haverá ainda mais vida, mais modos de te conhecer,
Mais angulos de onde te observar – e talvez nunca te veja do Único!
Haja o que houver, ave atque vale, ó Mundo!

A excitação sensacionista, entretanto, não exclui a angústia de viver ou de morrer. A eloqüência do apelo é logo enfraquecida pela presença da Morte (com M):

Partirei para aquele teu aspecto que a Morte deve revelar-me
Com o coração confrangido, a alma ansiosa, o olhar vago,
[...]
Partirei para a Morte nada esperando encontrar
Mas disposto a ver cousas prodigiosas do outro lado do Mundo.

Aqui, também, é a partida definitiva para a Morte que, ela só, dará acesso a esse lado do Universo que o Poeta ainda não conhece. Ele parte “com o coração confrangido, a alma anciosa”, mas é com alegria que reconhece que “a Morte / Vem como um Sol distante na antemanhã de [s]eu novo ser.” Vendo-a, estende os braços, não para ela, mas para o seu aparecimento (sempre as abstrações):

Estendo os braços para ti como uma creança
Do colo da ama para o aparecimento da mãe...
Por ti deixo contente os meus brinquedos de adulto,
Por ti não tenho parentes, não tenho nada que me prenda
A este prodigioso, constante e doentio universo...
Todo o Definitivo deve estar em Ti ou em parte nenhuma.

Por ela, abandona sem pena todo o transitório, porque nela encontra toda a segurança do definitivo. Nenhum receio em face do mistério (a palavra, tão freqüente neste heterônimo, nem é pronunciada), nenhuma angústia metafísica, nenhuma nostalgia dilacerada; em seu lugar, o alor confiante na viagem, sem pena do que deixa após si.

Tanto como neste poema, o terceiro (não atribuído) começa por versos que lembram certas odes, em particular os da Saudaçào a Walt Whitman e de A Passagem das Horas, encerrando uma expressiva autodefinição obtida através da enumeração insistente:

E eu o complexo, eu o numeroso,
Eu os saturnalia de todas as possibilidades,
Eu a ruptura do dique de todas as personalizações,
Eu o excessivo, eu o successivo,
Eu o prolixo [...]

A estas marcas do sensacionismo fortemente presente na poesia da primeira fase do engenheiro naval pode-se acrescentar o uso da interjeição eia!, a retomada da mesma saudação latina ave atque vale, a representação gráfica dos sons, o mesmo título do poema, para concluir que esses versos anônimos devem ser atribuídos, sem nenhuma dúvida, ao mesmo heterônimo de Pessoa. Ainda aqui, é da Morte que se trata. Ao fim de todos os sujeitos enumerados (ou, antes, da multiplicação de um mesmo sujeito através de numerosos apostos), vem o verbo principal: “Eu morrerei assim?”

A morte lhe revelará, ainda uma vez, “cousas absolutamente inauditas”, cousas que ele saúda: “Salve, ó cousas novas, a acontecer-me quando eu morrer”, quando terá partido “definitivamente”, “Como um vapor que deixa o porto para uma longa viagem, / Com a banda de bordo tocando o hymno nacional da Alma.” Homem de seu tempo, ele irá ao seu encontro num veículo aéreo. A viagem será descrita em termos técnicos que se reportam mais uma vez a abstrações, como já temos visto e se verá por toda parte em sua obra:

Haverá primeiro
Uma grande acceleração das sensações,
[...]
Com grandes dérapages nas estradas da minha consciência

e mais adiante:

Tudo o que vivi, e o que viverei, alem do mundo,
Será um veu fanado todo cinzento e homogeneo e incandescente
E com um tal aumentar do ruído dos motores
Que se torna um ruido já não ferreo, mas apenas abstracto,
Irei [...]

Até agora não falei senão dos textos inéditos do Arco de Triumpho, dos que foram editados, pela primeira vez, em 1990. Não me deterei no Opiário, na Ode Triumphal, ou na Ode Marítima, publicados por Pessoa em 1915, no primeiro número de Orpheu, dos quais não conhecemos outro original, nem no Carnaval; também deixarei de lado algumas diferenças entre os testemunhos dos Trez Sonetos encontrados no Espólio, e a edição da Ática e da Aguilar. Há, porém, dois poemas muito importantes aos quais Pessoa voltou inúmeras vezes, produzindo fragmentos mais ou menos longos – variações sobre um mesmo tema, como se tentasse afinar seu instrumento. São eles A Passagem das Horas e a Saudação a Walt Whitman.

Na edição da Ática, a primeira constava de nove folhas datilografadas – de cotas 70-13 a 70-21 –, seguindo a ordem que os editores propuseram segundo o seu próprio critério, que nunca se discutira. Vendo pela primeira vez os testemunhos no Espólio, verifiquei, surpresa, que o rosto da folha 70-19 tinha, à frente de uma única sílaba imitativa do som do vento “Ho”..., a indicação “growing as above”, enquanto no verso da mesma folha se lia “Ho-ho-ho-ho-ho-ho-ho” e, em seguida, “in growing type, wind-sound”; na linha abaixo, “three or four times over and growing in length”. Claro estava que a folha tinha sido lida ao contrário e que era necessário inverter-lhe as páginas. Levantada a dúvida, era também necessário rever toda a seqüência das outras folhas. As duas primeiras – 70-13 e 70-14 – articulam-se perfeitamente; a 70-15, que se inicia com os versos definidores – “Sentir tudo de todas as maneiras / Viver tudo de todos os lados” – não tem numeração e é seguida pela 70-16, essa sim, numerada, à máquina, no rosto (3) e no verso (4). Perguntei-me onde estariam as páginas 1 e 2, que esta numeração solicitava. E concluí que estariam na folha 70-17, a qual também abre com o título A Passagem das Horas e com o mesmo verso de 70-15: “Sentir tudo de todas as maneiras”. Esta folha 17 forma com a 16 um par incontestável, mas na ordem inversa da da Ática.

A necessidade destas duas alterações indubitáveis (70-19v antes de 70-19r e 70-17 antes de 70-16), autorizava-me, dizia eu em 1988, no volume zero da Edição Crítica da obra de Fernando Pessoa, produzida pela Equipa Pessoa, a “tentar reordenar o extenso e importante poema.” Também as adotou Teresa Rita Lopes em seu Livro de Versos de Álvaro de Campos, de 1993. Diferenças marcantes existem, entretanto, entre as nossas edições, no que diz

respeito à ordenação e agrupamento / não agrupamento das diversas folhas. Eu optei por manter os vários testemunhos agrupados, tais como os conhecíamos desde os anos 40, embora alterando-lhes a ordem, não só nos casos evidentes acima apontados, mas procurando estabelecer uma coerência semântica que parece ter sido a buscada pelo Poeta.

Eis o que escrevi, em 1988, ao fim de uma longa justificação da minha proposta de estrutura de A Passagem das Horas:

Como se pode ver, o poema se abre com o lema do Sensacionismo, sem implicação de tempo, num só momento “diffuso, profuso, completo e longinquo”, até ao verso 141. O primeiro momento fixado é a tarde: “Como um balsamo que não consola senão pela idea de que é um balsamo, / A tarde de hoje e de todos os dias pouco a pouco, monotona, cahe.” (vv. 142-3). Chega a noite, a madrugada, a manhã plena, o meio-dia e novamente a tarde: “Declina dentro de mim o sol no alto do céu. / Começa a tender a entardecer no azul e nos meus nervos”. (vv. 410-11) Assim se estabelece o ciclo ininterrupto do fluir irrecorrível do tempo, da inexorável Passagem das Horas.

Assim terminaria a Parte I. A Parte II se constituiria das duas folhas 70-17 e 16, E concluía eu, ainda justificando minhas propostas:

Desta segunda parte desapareceu a noção de tempos em sucessão. O verbo no infinitivo, com sentido optativo, transmite a ideia de continuidade do desejo: “Obter tudo por sufficiencia divina – [...] Poder rir, rir, rir despejadamente”, rematado com o imperativo: “E depois dêem-me a cella que quizerem que eu me lembrarei da vida”. (vv. 114,123,129). A cela como metáfora de fechamento, o fechamento num lugar de onde se lembra a vida, que está no espaço da morte, onde já não pode haver tempo, restando apenas lembrar a passagem das horas que é a vida.

Além da nova ordenação que dei à Passagem, permiti-me inserir, depois da hora plena do meio-dia, um fragmento de vinte e sete versos intitulado P. das Horas, end of morning hymn (vv. 271-97). Um hino à manhã no momento climático da identificação do Poeta com o ritmo vertiginoso da vida. Retomo a citação do meu texto de 1988, onde reitero a prudência com que são feitas as propostas, ab initio postas em dúvida por mim, que as faço, e terminando pelo convite ao debate.:

Não se pode saber – a não ser que apareçam outros testemunhos – se esta é a sua verdadeira ordenação. Sabe-se já que a que se seguia até aqui tem seguramente dois pontos indefensáveis. No restante, não sei que critérios se seguiram, ou se o texto foi, tal como está, para o revisor / tipógrafo, o qual teria a seu cargo a arrumação das folhas. Aqui apresento os critérios que adoptei, consciente de que são discutíveis. Que venha a contra-argumentação.

Também discutíveis são a ordenação de dois grupos de oito versos da primeira página de Saudação a Walt Whitman, a das várias folhas que já faziam parte da edição da Ática e a inclusão de textos manuscritos bastante longos no corpo do poema. A primeira foi seguida no Livro de Versos; as duas outras foram duramente criticadas pela sua arbitrariedade, apesar de eu já ter escrito, na minha edição, referindo-me às várias possibilidades de arrumar o poema, aquele “de que há maior número de fragmentos denotativos da importância que lhe atribuía Fernando Pessoa e do afã que punha em sua elaboração.” O Poeta deixou-o incompleto, tal como A Passagem, e isso deve explicar o não tê-los publicado, como fez às outras duas grandes odes sensacionistas – a Ode Marítima e a Ode Triumphal. O poderem ser intercambiáveis cria a desconfiança não só na ordem proposta pelos primeiros editores como nas que se possam propor. No empenho de restituir ao poema a seqüência determinada por Pessoa – se, na verdade, ele chegou a determiná-la, sendo as várias folhas mais que peças de um puzzle a ser montado –, ou de atribuir-lhe a ordem que ele planeara (a priori ou a posteriori?) no projeto mais completo do poema, atentei nos seus cinco itens, verifiquei que nos três primeiros ele insiste no saudar: no primeiro, como; no segundo, porque; no terceiro, novamente porque, e mais como e com quê. Nos dois finais, fala da Fallencia da saudação, sendo o quinto a Conclusão, resumida em seis versos, dos quais os dois primeiros são: “Conclusão a rodas partidas! / Final a motores parados.” Pois um dos manuscritos que encontrei (71-12 v) se inicia por O fim a motores partidos)” que é a síntese daqueles dois. Esta a razão por que o inseri no quase-fecho do poema.

Os bem numerosos textos encontrados no Espólio e facilmente identificáveis como pertencentes a um ou outro dos poemas, enumerei-os sob a rubrica “Textos Suplementares”. E não volto atrás das decisões que tomei, sempre cautelosas e consideradas questionáveis. A única exceção que faço é para os oito versos finais da Saudação, que constavam de todas as edições, nos quais o Poeta se dirige ao Grande Libertador, como em outro fragmento, incluídos ambos por Teresa Rita Lopes no conjunto de fragmentos de A Partida. Estou convencida de que o Libertador é Caeiro e não Whitman.

A tentativa de dar aos poemas a sua possível estrutura foi feita segundo os vários projetos de Pessoa, no empenho sério mas também apaixonado de apresentar pela primeira vez, à entrada da obra poética de Campos, o volume sonhado por seu criador, este Arco de Triumpho que, afinal, ficou inacabado. Mesmo assim, tentei pô-lo de pé, à entrada da obra. E lá o pus, cônscia de que o que lhe falta não o desmerece, como acontece às ruínas de templos ou castelos, à Vênus de Milo ou à Niké de Samotrácia, e criando-me a ilusão de ter realizado, ao menos em parte, o sonho que Pessoa transferiu ao engenheiro.

 

Notas

  • 1 Todas as referências aqui feitas se reportarão à Edição Crítica da Obra de Fernando Pessoa, vol. II, Poemas de Álvaro de Campos, edição de Cleonice Berardinelli. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1990, onde os textos estão na ortografia original. As referências à edição crítica de Teresa Rita Lopes dizem respeito a Álvaro de Campos, Livro de Versos. Lisboa: Referência-Estampa, 1993.

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