Revista SEMEAR 5  
   
Dois Josés encaram a morte

 

Cleonice Berardinelli

Em 1998, estando em Coimbra a participar de um Congresso, fui, num intervalo entre sessões, visitar algumas livrarias. Logo na primeira, vi na montra De Profundis, Valsa Lenta,[1] a última obra de José Cardoso Pires, que entre maio e junho de 1997 atingira a 9a edição. Acompanhava-o com a minha admiração desde que me chegara às mãos o seu primeiro livro, O Anjo Ancorado. Não era este último, sabia eu, mais uma de suas obras de ficção, nem mais um volume de ensaios, mas o relato emocionante de um bocado de vida difícil de enfrentar e talvez mais ainda de fixar (agarrar) pela palavra.

Comecei-lhe a leitura pela “Carta a um amigo-novo”, escrita a pedido do autor do livro pelo médico que o acompanhou desde a manifestação do seriíssimo acidente vascular cerebral que o acometeu — o notável neurologista João Lobo Antunes. Além do interesse que desperta no leitor admirador de Cardoso Pires pelo fato de satisfazer a sua curiosidade de esclarecimento sobre o terrível perigo que ameaçara a sanidade do escritor, um acidente vascular cerebral que o atingira justamente no ponto mais importante de seu cérebro privilegiado — a sede da fala, da escrita e da leitura, a sede da memória —, além desse interesse, repito, o texto de Lobo Antunes nos prende pela sua alta qualidade literária e, embora antecipando, resumidamente, muito do que escreverá o autor do retalho de “autobiografia”, não roubará ao leitor o prazer do encontro com o texto original. Eu escrevi “autobiografia” entre aspas (esclareço). Adiante explicarei por quê.

À primeira página, assaltou-me a lembrança de outro livro escrito quarenta anos antes, por um outro José, livro que me seduzira desde o título, um homem sorri à morte com meia cara[2], sedução que se acentuara pela experiência terrível nele expressa e pela força com que seu autor, José Rodrigues Miguéis, a soubera exprimir. Tive vontade de relê-lo logo em seguida e escrever algo a aproximá-los. Não o tinha, porém, à mão, e acabei por esquecer o projeto esboçado no meu desejo.

Quando Izabel Margato e eu começamos a planejar este seminário, ela fez-me uma afetuosa exigência: desta vez eu deveria fazer uma das conferências. Nos seminários anteriores, eu me tinha limitado às falas de abertura e encerramento, à participação nos debates, mas agora, quando homenageávamos Cardoso Pires, não me iria furtar a erguer a minha voz nessa celebração. Aquiesci prontamente: Cardoso Pires é dos autores que mais admiro e mais largamente tenho lido e estudado, sobre cuja obra fui dos primeiros a dar cursos e orientar teses, e, a par disso, uma figura humana de altas qualidades, alguém que conheci há, pelo menos, vinte e dois anos, pois é do Natal de 1977 a dedicatória com que me ofereceu o seu admirável E Agora, José?, um livro ricamente compósito, escrito de 1964 a 1977, onde há páginas de revolta contra a situação do país, de imensa ternura pelos amigos que se vão definitivamente — José Dias Coelho, António Alves Redol —, de profundas reflexões sobre a “Técnica do Golpe de Censura”, texto publicado em 1972 (quando não poderia tê-lo sido em Portugal) em uma revista londrina e outra parisiense, e até uma longa e arguta análise, nitidamente estruturalista, do seu inovador romance O Delfim. Desta auto-análise falou ele, em 1983, na Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro, num notável encontro de nove escritores portugueses: além do nosso autor, os ficcionistas Almeida Faria (celebrizado ao lançar, aos dezenove anos, o surpreendemente novo Rumor Branco), Isabel Nóbrega, Lídia Jorge; os poetas Pedro Tamen, Fernando Assis Pacheco e Alexandre O’Neill; os estreantes António Lobo Antunes e José Saramago, que explodem quase ao mesmo tempo (1979 e 1980), iniciando carreiras que hoje, decorridos dezesseis anos, são de ascensão constante.

O ter organizado o encontro e coordenado a mesa-redonda em que todos falaram valeu-me, além da alegria de tê-los ali reunidos, a oportunidade de receber, de vários deles, livros com dedicatórias. Transcrevo a que Cardoso Pires me fez num exemplar da edição de 1982 da Balada da Praia dos Cães: “Para Cleonice Berardinelli, uma palavra de muita gratidão por este encontro. Seu, José Cardoso Pires. Rio, Setembro de 1983”. Transcrevo-a para realçar a sua delicadeza, valorizando sobremaneira o nosso encontro, quando, àquela altura, já tinha publicado quatro volumes de contos, dois de ensaios, dois de teatro, um a que chamou fábula, e três romances; quando a Balada já ia pela 5a edição e recebera o Grande Prémio do Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores.

Fecho o parêntese onde inseri o encontro de 1983. Reabro o volume E Agora, José?[3] e chego ao texto final. É muito breve e tem o mesmo título. Em epígrafe, um recorte do poema homônimo de Drummond. Não datado, mas situado depois de outro de 1977, num livro publicado no mesmo ano, neste deve ter sido escrito, mas nele há ainda a sombra de “censores” e mais, “na pastelaria da esquina”, “um pide” (EAJ, 332). José, andando “nos cinquenta, mais ano, menos ano” fuma diante do espelho, reflete-se e reflete: “Fumar ao espelho, solidão dobrada.” Continua fumando — “Cigarro ácido, esse.” (EAJ, 331) — e fitando-se no outro que vê ao espelho:

Estás aqui e no ontem, e quando olhas para diante é a ti que tu vês. Gato escaldado, eis o que me lembras; um gato escaldado por cinquenta anos de água benta, que mia dobrado a adivinhar chuva. Compreende-se, é natural. Como dizia o teu Drummond,

Nascemos no escuro
e fomos educados para o medo,

mas por isso mesmo talvez um pouco de amnésia não te fizesse mal, a ti e aos teus amigos, às tuas devoções. A amnésia política vale por mil cigarros” (EAJ, 331).

Parecerá que o deter-me algum tanto neste livro seja uma digressão imperdoável numa palestra que se pretendia dedicada à análise do último livro de Cardoso Pires, apondo-lhe, em contraponto, o de José Rodrigues Miguéis. É o momento de justificar-me. O ensaio final do livro lançado em 1977 traz em epígrafe vinte e oito versos tirados do poema de Carlos Drummond de Andrade, “José”. E o José que aí vemos em duplo — ao espelho e no espelho — fuma o tempo todo, a questionar-se e a fazer previsões pessimistas: “Cinquentas, meio século de vislumbrada malícia de si mesmo e de nicotina. Cancro apalavrado, ai coitadinho.” (EAJ, 33). Pois é essa mesma epígrafe, resumida em apenas três versos, o primeiro e os dois últimos do poema, que se reencontra à entrada de De Profundis. Lá está, ao alto da segunda página (a primeira contém o relato brevíssimo, doloroso e contundente, do ataque do AVC), onde se lê, apenas, “E agora, José? / [...] você marcha, José! / José, para onde?” E o leitor relembra a profecia de José, fumante obsessivo, vinte e um anos antes: “Cancro apalavrado, ai coitadinho.” e a reencontra, meio realizada, num acidente vascular cerebral. E não foge à emoção. Mais que isso: o José de cinqüenta e dois anos monologa, num pretenso diálogo com o seu outro, que dele se dissocia num processo perfeitamente lúcido, voluntário, de auto-inquirição; o José de setenta e dois anos pergunta à sua mulher: “Como é que tu te chamas?” Ouve-a responder: “Edite. E tu?” e ouve-se a si próprio: “Parece que é Cardoso Pires.” (DP, 21). E, naquele exato momento, percebe que uma profunda mudança se fez: “Ainda hoje estou a ouvir aquele ‘é ’. Espantoso como bruscamente o meu eu se transformou ali noutro alguém, noutro personagem menos imediato e menos concreto.” (DP, 23). Daí em diante, ele terá, a acompanhá-lo, sem que o fosse buscar (surgido de onde?”), o outro: “Ele, o Outro. O outro de mim”. (DP, 24). No livro anterior, José, consciente, afirma-se: “Mas José é José. Entre outras coisas adivinha que o querem despir de passado para que não reconheça o presente que lhe enviam pelas costas, e defende-se.” (EAJ, 327). Agora também perdeu o passado, pois se “transferi[u] para um Outro sem nome e sem memória.” (DP, 24).

Espero ter respondido ao reparo que talvez me estivessem fazendo alguns dos que aqui estão: há uma curiosa ligação entre o ensaio “E agora, José?” e o livro final, De Profundis, Valsa Lenta. Ambos se escrevem, digamos, sob o signo de Drummond, “o teu Drummond”, como diz José ao outro, que está no espelho, denunciando a permanência do nosso poeta na trajetória do ficcionista português, e no seu carinho, creio eu. Em ambos há pontos coincidentes, ou quase, que procurei apontar. E, evidentemente, imensas diferenças.

Volto à proposta inicial, e passo a falar do primeiro termo da aproximação que fui atraída a fazer: um homem sorri à morte com meia cara, a que o autor apôs: narrativa, editada pelos Estúdios Cor, de Lisboa, em 1959, há quarenta anos, pois. Acho que é necessário esclarecer os que me ouvem, alguns dos quais estarão talvez ouvindo pela primeira vez o nome de José Rodrigues Miguéis, informando-os de que este se expatriou bastante moço para os Estados Unidos, e lá passou grande parte de sua vida, lá tendo falecido em 1980. Toda a narrativa decorre, pois, nos Estados Unidos, mais precisamente em Nova York:

Ao traçar estas páginas de memórias duma crise, entre tantas que talvez um dia reúna em maior tomo, punha-se-me este problema:
Até que ponto pode um escritor falar das suas experiênciais pessoais, sem incorrer na pecha do subjectivismo e sem ser indiscreto a respeito de si mesmo?
[...]Estas não são confissões de egotismo, nem de actos ou pensamentos secretos, nem sondagens do “eu odioso”— mas um caso humano narrado em primeira mão, com a objectividade dum romance [...]
Sim, foi para os hipocondríacos — os aterrados da doença, os obcecados do fim — que eu, sobretudo, escrevi estas páginas de jornal: para os que queiram saber como se reage num leito de hospital, quando a morte ronda. [...]
Procurei pintar um ambiente real: o dos hospitais duma grande metrópole moderna, onde a dor e a brutalidade, a doçura e o humor, e em particular a devoção de médicos e enfermeiras põem traços de tragédia e de epopeia, diante dos quais o caso pessoal se apaga e some. (UHS, 13)

A sua gratidão aos médicos e enfermeiras afirma-se, como se vê, desde o início e se reafirma, em tom jocoso, ao fim do prefácio:

Se, ao traçar alguns episódios, rocei aqui-além pela ironia, é sempre com profundo respeito e comovida gratidão que me refiro aos autênticos apóstolos da Medicina que tenho conhecido. [...] Nem de longe tentei reincidir na sátira de que há milénios eles têm sido alvo. Pode dizer-se dos médicos o mesmo que das mulheres e dos judeus: crivados de epigramas e ataques, a humanidade não sabe nem pode viver sem eles. (UHS, 15)

Refere-se Miguéis a uma crise, mas, na verdade, são duas as crises que narra, e ambas muito graves. A diferença está em ter sido a primeira — uma peritonite extensiva, iniciada no apêndice gangrenoso e purulento — superada com uma delicada cirurgia, seguida de um período bastante melindroso de recuperação, podendo ele voltar a casa ao fim de um mês, embora ainda nos braços dos cunhados, enquanto que a segunda, em que ao sofrimento físico acrescia o risco de perder a visão, a audição e a própria consciência, estendeu-se por um tempo mais longo, que não posso precisar, mas que durou do outono ao começo do inverno, mais exatamente, ao dia de Natal. Da primeira não relata seqüelas; da segunda ficou a insegurança no andar, a pouca resistência, a fadiga. Na primeira, internado num quarto particular no Hospital Beth Israel; na segunda, numa enfermaria de um hospital público, o Bellevue, com poucos médicos e enfermeiras (era o tempo da guerra) para o número considerável de doentes, quase todos muito graves, alguns paralíticos ou impossibilitados de locomover-se. Aí esteve, cercado de dor, de desespero, de morte — o biombo branco posto à roda do leito, a remoção do morto, o leito levado para a varanda, a arejar.

O diagnóstico das duas graves afecções foi retardado por ser ele considerado um hipocondríaco, pior ainda, um hipocondríaco literato, que ficcionava os seus achaques e as suas dores. Que tinha características de hipocondria, “uma doentia preocupação com o funcionamento dos órgãos” (como define Aurélio), ele mesmo o admite, como se pôde constatar na citação que há pouco fiz do prefácio do livro. E já agora posso acrescentar uma informação que me forneceu Onésimo Teotónio de Almeida, enviando-me a tradução inglesa de um homem sorri à morte com meia cara (feita pelo professor americano de ascendência portuguesa, George Monteiro) A Man Smiles at Death with Half a Face, onde o tradutor reproduziu uma autocaricatura de Miguéis, na qual se vê um homem despido, tal como aparece em livros de história natural, ao qual vêm dar linhas terminadas por setas, tendo, na outra ponta, o nome (em inglês) das doenças que o afligem. Do alto da cabeça, onde se regista “perda de memória e fadiga cerebral”, até às plantas dos pés, caracterizados como “pés chatos”, só um par de órgãos não me parece afetado: os pulmões. No mais, há problemas por toda parte, alguns dos quais merecem sinais de exclamação, como “writer’s cramp!!” (cãibra de escritor). Abaixo do “esfolado” e separado por um ângulo reto, à esquerda, lê-se: “com 71 _ anos, em 1973 — à parte isto, em perfeitamente boa saúde!”. E pouco abaixo, fechando a folha: “1976 (o 6 escrito por cima de um 5) — tudo pior”. Como se vê, trata-se dum hipocondríaco cheio de humor, embora um pouco amargo. E talvez tivesse razão para sê-lo, com todas as doenças crônicas de que realmente padecia, “um molho de nervos vibrando dentro duma carcaça de pele e osso”, pesando “apenas cinquenta e quatro quilos. Foi quando sobreveio a crise.” (UHS, 19, 22) e, levado para o Hospital Beth Israel, passa “a reagir menos aos acontecimentos e às pessoas. (UHS, 24), não consegue revidar ao Dr. Isaacs a grosseria feita à sua mulher — ao longo de todo o livro, sempre referindo-se a ela com carinho e gratidão, não lhe pronuncia o nome, que agora sei que é Camila:

Mas não me mexi nem pronunciei uma palavra. Era como se tudo se passasse do outro lado duma grossa chapa de cristal. Eu estava a perder contacto com a realidade, a afundar-me na modorra e na inconsciência. E sabia-o. (UHS, 25)

O sofrimento, até à operação, era insuportável; o que lhe valia eram os “amigos queridos, atenções médicas, enfermagem solícita.” (UHS, 29). Um amigo brasileiro, designado pelas iniciais N. de R., vem de Washington para assistir à operação. As melhoras se acentuam e ele as acelera com a “terapêutica da fantasia”, dando longos passeios imaginários, acompanhando ao longo da serra da Arrábida um querido amigo brasileiro que tinha esperança de vir a Portugal” (UHS, 34). Volta para casa, como já ficou dito.

Continua a fumar, sem coragem para abandonar o vício, adiando-o, pelo menos até ao momento em que escreve, aos cinqüenta e seis anos.

Ano e meio depois da peritonite, começa

[...]a sofrer de estranhas perturbações. Certa noite acordei de salto, com a sensação duma martelada interna no crânio. Passei a dormir agitado. [...] Pouco a pouco um anel de ferro cingiu-me a cabeça. A minha visão alterou-se [...] A dada altura, notei que as vozes, ao telefone, se me tornavam intoleráveis, dando-me dores agudas no ouvido interno esquerdo. [...] tinha dificuldade em focar os olhos, parecia-me ver como através dum vidro ou de água.” (UHS, 39-40)

O médico continuava a dizer que era tudo psicossomático. Suplicou-lhe que lhe desse penicilina (a descoberta do Dr. Fleming era ainda bastante recente); o Dr. M.K. receitou-a em inalações. Os sintomas se agravavam, até que

Certa manhã, ao lavar os dentes, notei que a água escorria da boca pelo canto esquerdo, como dum saco roto: o lábio superior descaía à esquerda, inerte, e eu não podia assobiar. Era o golpe. A paralisia facial alastrou velozmente, e senti-me condenado. Havia alguma coisa no meu cérebro... (UHS, 41)

Por um feliz acaso, seu amigo N. de R.volta a Nova York, alarma-se e consegue que o grande neurologista Foster Kennedy, de quem fora assistente, o veja sem demora. “De outro modo, eu teria esperado quinze dias — ou seja, demasiado.” “Não quero dar-lhe a entender que tenha um tumor cerebral. Mas tem possivelmente um abcesso, e com certeza uma infecção grave numa zona muito delicada do encéfalo.” (UHS, 42), disse o Dr. Kennedy, acrescentando: “Não se importa de ir para uma enfermaria do Hospital de Bellevue? É uma experiência curiosa, para um escritor...” De fato, o médico era um dos mais caros da cidade, cujos honorários devorariam as suas magras economias. Miguéis concorda. “Pela mão dele eu teria descido aos infernos.” (UHS, 43).

Enfim, como pedia desde muito, começaram a dar-lhe doses maciças de penicilina — àquele tempo, lembro-me bem, as injeções eram aplicadas de duas em duas horas e os doentes ficavam com a região marcada a ponta de agulha, tais como os enforcados da “Ballade des Pendus”, de François Villon: “Plus becquetés d’oiseaux que dés à coudre”, e extremamente dolorosa. Era um tratamento penoso, mas eficiente. Sem ele, nosso autor não teria escapado, foi o que lhe afirmou o Dr. Kennedy: “Você é o primeiro doente do seu tipo que eu vejo vivo e consciente. Deve orgulhar-se disso como eu me orgulho. Não se esqueça que o deve ao grande Fleming. Sem ele...” (UHS, 130). E mandou-o de volta a casa: “Vai ser o mesmo homem. E depois duma curta e grave reflexão: — Noventa por cento o mesmo.” Mentalmente descontei: “Setenta e cinco por cento, se for...”

O fato é que, mesmo com algumas seqüelas e a permanência de outras moléstias anteriores, Rodrigues Miguéis viverá mais trinta e cinco anos e escreverá ainda cerca de dez livros. Os setenta e cinco por cento de recuperação não terão sido no encéfalo atingido pela infecção; o seu cérebro privilegiado foi recuperado nos seus cem por cento.

Deixamos Cardoso Pires naquele momento dramático em que o eu se transforma noutro alguém. E mais:

Além disso, a circunstância de ter respondido à Edite com o apelido e não com o meu primeiro nome, o mais cúmplice entre marido e mulher e o único que nos era natural, é outro indício do distanciamento provocado pelo golpe de azar que me destituíra de memória e de passado.
Ele, o Outro. O outro de mim. (DP, 23-4)

“Ele, o Outro.”, escrito com maiúscula, como nome próprio — o seu desaparecera. E ele está sereno, embora sinta “que alguma coisa se estava a passar” com ele, “mas nessa altura já principiava a ouvir e a sentir só de passagem, sem registar” (DP, 23). Como o José de vinte anos antes, vai para a frente do espelho, mas agora para se barbear, “com a passividade de quem está a barbear um ausente — e foi ali.” Ali é espaço e tempo. Naquele ali, sentindo-se desligado da sua imagem, transferiu-se para um Outro,

[...] um Outro sem nome e sem memória e por consequência incapaz da menor relação passado-presente, de imagem-objecto, do eu com outro alguém ou do real com a visão do que o abstracto contém. O mesmo que a mulher (Edite, chama-se ela mas nada garante que esse homem ainda lhe conheça o nome, que não a considere apenas um facto, uma presença), exacto, esse mesmo Ele, o tal que a Edite irá encontrar, não tarda muito, a pentear-se com uma escova de dentes [...] (DP, 24-50)

A narração difícil da sua difícil experiência será feita por um narrador homodiegético que se diz eu, a falar de um personagem a que chama Ele, ou o Outro, ou o meu Outro eu. Não haverá, então, dois eus? O que narra, no presente da enunciação, e o que coexistia com o Outro naquela

Brancura hospitalar, murmurada e sonâmbula, esta aqui. Uma atmosfera de quietude sulcada por palavras sem rasto. O universo para onde desertou esse Outro que eu acompanhei com as esvaídas recordações que trouxe dele ou com os relatos da minha mulher e dos amigos que me visitaram era assim. (DP, 27)

Só um eu pode usar os dêiticos da primeira pessoa — esta aqui. Estava, pois, com o Outro na brancura hospitalar, de onde trouxe “as esvaídas recordações” e/ou os relatos de Edite ou dos amigos. Que a situação é ambígua, dá-nos conta a própria incerteza do eu narrador (“Suponho[4] que o reconheceu. Reconheceu-o com certeza mas provavelmente só de figura, isolado de qualquer contexto.”) (DP, 27), suas tentativas de justificar-se (“conforme me contaram depois”) (DP, 25), algumas certezas (“Subida ao calvário num elevador carregado de macas com doentes de olhos fechados ( foi a imagem que eu fixei).” (DP, 27)

Estava ainda com Ele, quando o médico diz que “o mais provável é ter de ficar internado. / E logo Ele muito rápido: — Internado, não. — (Aí já se deixa ver que era ainda um último resto de mim que protestava.)” (DP, 27-8). Também presente quando o vê, “de corredor em corredor” (DP, 28), a fazer exames sucessivos.

Ele começava a ter problemas na fala. Eu “não posso dizer [...] se nessa altura ainda falava com clareza ou se já tinha começado a desmantelar as palavras.” (DP, 28) Daqui até ao fim do parágrafo, o narrador narra sem dúvidas. E acrescenta:

Continuo a segui-lo. A princípio houve uma ou outra situação em que nos confundimos e fomos um só. Situações raríssimas, devo acrescentar, breves clarões de consciência. Mas em menos de nada já ele se tinha perdido de mim e ia, hospital fora, a arrastar uma névoa. (DP, 28)

Agora que já não se confundem, o eu narrador falará, com segurança, do que lhe relatou Edite: o “acidente vascular cerebral [fora] de gravidade muito acentuada”; “o centro da fala e da escrita estava profundamente afectado e podia conduzir a uma sobrevivência em incomunicabilidade total.” (DP, 29). A notícia divulgada pela imprensa foi de morte cerebral. O narrador prefere dizer “morte branca”, que escreve na “página em que est[á] a reconstituir passo a passo esse Outro que, de mão na mão com a Edite, se encaminha para o quarto onde vai ser internado.” (DP) Lá estavam

[...] dois vultos a espiá-lo em duas camas. Viam-no sob lençóis mas de rosto ao alto e a sorrir. A sorrir? [...] Assim o viam os dois doentes com quem ele ia ficar e assim o estou eu a descrever, passados dois anos sobre essa hora: branco, branco, em luz gelada e com a mulher à cabeceira a segurar-lhe a mão. Preso a ela mas todo voltado para a distância. (DP, 30)

Viam-no “branco, branco”, este candidato à “morte branca”, na “brancura hospitalar, murmurada e sonâmbula”, onde ele entrou. A presença do branco é obsidiante, um branco igualitário, que dissolve os contornos, inclusive os que estabeleceriam limites entre eu e ele. (Não escapo à lembrança da cegueira branca de Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago, de sua dissolvência total.)

Jovens médicas vêm interrogá-lo:

Ele percebe que o estão a investigar, por mais anulado que se encontre não se considera tão à margem como isso. Percebe, não tenho dúvida (recordo essa minha reacção no primeiro interrogatório) mas o que ele ignora é que já não identifica os objectos que lhe apresentam: [...] O Outro de mim naturalmente que os conhece como peças, instrumentos, sem interior, sem razão[5], mas eu diria que só de vista porque os isolara de referências.
Tempo depois, quando a família e os amigos me descreveram a passear de alma ausente pelo anoitecer da memória, é que eu soube como era desvairada a nomenclatura que ele atribuía aos objectos questionados [...]. “Simosos”(?), por exemplo, [...] tanto podia ser “gilete” como “óculos” ou “arrastadeira” [...]. “Cachimbo”, uma peça que nunca na vida teve alguma coisa a ver comigo, tomou-a ele como sinónimo de “chinelas, chinelas de quarto”. (DP, 32-3)

A caligrafia alterou-se-lhe sensivelmente, mas de súbito, em pouco mais de uma semana, a sua assinatura aproximou-se da original, como se pode ver nas cópias que têm em mãos.

Era, de certo modo, o início da recuperação da personalidade. Como neste diálogo com Edite (sempre a Edite!):

“Eu tenho filhos, não tenho?” [...] (Eu. Uma vez mais o sujeito solitário, repare-se.) “Como é que eles se chamam?”
“Temos duas filhas. A Ana e a Rita”, respondeu ela.
“Rua?”
“Não, Rita”, diz a Edite.
“E ele: “Pois, Rua.” (Pensava ter dito Rita, é evidente.) “Então e o António Nuno?”
Edite: “O António Nuno era teu irmão, morreu há muito tempo. Nós, além de filhas, temos dois netos.”
Ele: “Pois, dois netos. Como é que eles se chamam?”
Edite: “Joana e Rui.”
Ele: “Rui. Que nome tão feio.”
Os nomes. A preocupação de se reconhecer vivo, identificando-se pela identificação dos outros. Durante a travessia das trevas brancas os diálogos com a Edite foram em grande parte uma busca de referências, um inquérito em total inconsciência na tentativa de se recapitular para voltar a ser indivíduo com passado. (DP, 37-8)

Estamos quase exatamente a meio da narrativa. Nas páginas seguintes, vê-lo-emos “deslizar por entre portas e paredes duma brancura macia”, [...] “paredes mansas, as tais paredes em álvura pérola; por entre elas, os sons, as figuras e o tempo, tudo num deslizar suave, sem densidade.” (DP, 40-1) Esse vaguear, ele o representa pela supressão da pontuação e pela diagramação da página, onde linhas longas e breves se sucedem irregularmente, sugerindo um caminhar de rota insegura.

No meio da rota, um letreiro: BANHOS, e ele vê as letras ao contrário, uma e outra e mais vezes: aflige-se e interroga-se “se não estaria a caminhar para a loucura.” (DP, 45) É a primeira vez que se faz tal pergunta. Por que lhe teria ela “acontecido” a propósito de um letreiro? No presente da enunciação, tenta explicar-se:

[...] admito que essa perturbação se possa dever a um eco da minha identidade do passado: ao enfrentar aquele letreiro como uma provocação da leitura e da escrita era o ex-autor de livros que estremecia na cegueira em que tinha mergulhado e que tirava do fundo da sua razão perdida o esboço duma interrogação à loucura. Seria? (DP, 45)

O leitor volta a página e quase se assusta com a inesperada alacridade da cena que se lhe depara:


[...] certa manhã acordo em claridade aberta com gargalhadas a crepitarem à minha volta. Dum momento para o outro, o sentido de presença. E tudo concreto, tudo vivo. [...] E eu, no meio de tanto riso, descobri (sem espanto, sem assombro, custa a crer) que acabara de me libertar duma doença mais que maldita, duma cegueira ou dum apagamento por onde andara sem norte e sem dias e que numa viragem sem aviso pessoas e luz, palavras e matéria, tudo tinha voltado à realidade. [...] avancei para o lavatório e ao aproximar-me reconheci-me no espelho. Eu. Eu saído da névoa, a ir ao encontro de mim na superfície dum vidro emoldurado e com a sensação ou com a certeza (ah sim, com a certeza, a mais que certeza) de que encontrara a memória [...]. (DP, 46-7)


“Iluminadas, felizes”, chegam Edite e as filhas. Quando de novo partirem, ele irá “continuar o reconhecimento da geografia sonâmbula por onde naveg[ou]”, percorrerá os corredores cuja “brancura já não é de vazio e solidão nem de extensões de luz fria.” (DP, 52). Vê ainda uma vez o letreiro “que é uma das raras imagens que [lhe] ficaram do tempo cego. // Do tempo nulo. Ou passivo. Como se queira.” (DP, 53) “Mais dois, três dias, e iria levantar ferro da ilha dos náufragos para reviver a casa e o mundo e voltar à escrita e aos livros nas últimas linhas em que os abandonara.” (DP, 57)

José Cardoso Pires escreve este livro dois anos depois do regresso a si mesmo, ao mundo e a sua casa, dois anos depois daquele momento em que, desfeitas as trevas brancas, voltava à normalidade, retomava o minuto interrompido, prosseguia a frase abandonada a meio, tudo, como ele diz, “naturalmente — tudo assim, nada mais simples.” (DP, 58)

E assim, novamente senhor da palavra, produz uma obra que deita raízes na sua própria e dolorosa experiência de perder-se, buscar-se e reencontrar-se, em toda a sua inteireza. E o leitor que o acompanhou ao longo de uma carreira luminosa, num total de dezoito obras — cinco livros de contos, cinco romances, dois volumes de teatro, dois de ensaios, dois de crônicas, um a que chamou “fábula”, — compartilha da sua alegria de ser capaz de escrever este último, que tira de profundis, da profundeza do abismo de si mesmo, feito de treva branca, por onde o Outro desliza, “uma sombra branca corrida no branco” à procura de um nome, ainda que o considere feio: “José José José”. À pergunta do nosso José, que se chamava Carlos, “José, para onde?” ele poderia ter respondido: — Para a reconquista da memória, para a recuperação da palavra, que a reproduz e mantém, para a certeza de estar vivo, de ser em plenitude. E pela palavra continua a ser.

 

Obras citadas:
MIGUÉIS, José Rodrigues. um homem sorri à morte com meia cara. Lisboa: Estúdios Cor, 1959.
PIRES, José Cardoso. E Agora, José? Lisboa: Moraes, 1977.
——. De Profundis, Valsa Lenta. Lisboa: Dom Quixote, 1997.

Notas

  • 1 As citações deste livro terão a sigla DP.
  • 2 As citações deste livro terão a sigla UHS.
  • 3 As citações deste livro terão a sigla EAJ.
  • 4 Os itálicos, a partir daqui, são de minha responsabilidade.
  • 5 Grifo do autor

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