ISBN: 978-85-61512-00-2
   


 

 


 

Organização:

Rosa Marina de Brito Meyer e Ida Maria da Mota Rebelo

 

////////Português para Estrangeiros: territórios e fronteiras reúne artigos contendo tanto discussões de assuntos relacionados ao tema quanto resultados de análises de dados, sempre abordando questões surgidas da reflexão oriunda de pesquisas, da prática do ensino de Português a falantes de outras línguas ou de atividades relativas à formação de professores. Sejam essas ações pontuais - como aquelas realizadas em projetos de ensino-aprendizagem à distância -, sejam contínuas - como o curso de Formação de Professores de Português para Estrangeiros oferecido anualmente na PUC-Rio ou as turmas de Português para Estrangeiros, oferecidas tanto na PUC-Rio como em outras instituições do Rio de Janeiro e de outros estados do Brasil, todas estão acolhidas nesta publicação.

Buscamos combinar textos que apresentam uma variedade, no que concerne às produções dos autores, de espaço geográfico, nacionalidade e língua, bem como colocar o foco na questão metafórica dos territórios que constituem a área de estudos e pesquisa do Português como Segunda Língua e a sua prática profissional quotidiana.

O título-tema desta publicação inspira-se nos dois últimos encontros que reuniram em 2007 e 2008, sob o título geral de PLE-RJ, pesquisadores, professores, estudantes e interessados na área de Português como Segunda Língua (PL2), também chamada de Português Língua Estrangeira (PLE) ou, mais comumente, Português para Estrangeiros (PE), ou ainda, como diriam nossos colegas do outro lado do Atlântico, Português como Língua Não-Materna. A propósito dessas produções, temos a participação de pesquisadores de ambas as variedades da Língua Portuguesa, o que inclui, por exemplo, questões sobre como o Português é percebido por falantes de outras línguas conforme a variedade, de Portugal ou do Brasil, com que estes se deparam. Esse é o caso do artigo de Melo e Rebelo, que apresentam a imagem do português com que se defrontam falantes de outras línguas românicas, interagindo em chats de uma plataforma digital de aprendizagem da qual participam falantes das variedades de Portugal e do Brasil.

De forma mais alargada, Barcellos da Silva apresenta as questões ancestrais sobre variedades e variantes, insistindo no fato de que  a gramática de uma língua, em sua essência, seria sempre descritiva, uma vez que, para a autora, seu objetivo maior visa ao registro do costume e não à imposição de regras, sem esquecer que os falantes, ao arcar com as escolhas lingüísticas que se arvorarem a fazer, revelam também os grupos a que pertencem, sejam eles sociais, profissionais, ou geográficos e que essas distinções podem restringir ou ampliar a compreensão dos falantes de outras línguas que com eles se defrontarem.

A pergunta colocada por Torres e Meyer, sobre Quais os possíveis territórios da identidade brasileira? Enfatiza a função do professor de língua estrangeira (LE) e/ou de segunda língua (L2) no sentido de buscar melhor compreender as questões identitárias relacionadas à língua que ensina, com o intuito de evitar fortalecer estereótipos e preconceitos. Nesse artigo é discutida a influência exercida, sobre estrangeiros e potenciais aprendizes da língua, pela imagem generalizada de brasileiro impontual, uma vez que essa pode interferir tanto em interações sociais quanto profissionais. Sendo assim, e partindo-se do pressuposto de que a experiência social e cultural interfere na concepção humana de tempo, as autoras apresentam resultados obtidos por meio de entrevistas que visavam criar subsídios para a construção do conceito de pontualidade na cultura brasileira.

Colocando, igualmente, o foco na questão do conceito cultural de tempo para o brasileiro, encontraremos o artigo de Albuquerque, que tece considerações acerca dos parâmetros que norteiam os casos de flutuação na seleção dos tempos verbais do subjuntivo na variedade brasileira, e que fogem às prescrições encontradas nos compêndios gramaticais. Segundo a autora, do ponto de vista da enunciação, os conectivos que expressam valor temporal simultâneo ou posterior ao momento da fala, ou seja, após o ponto dêitico enunciativo, podem ser encontrados em produções atípicas. Essa observação leva-a a afirmar que a construção e a aceitabilidade dos casos de flutuação apresentados podem envolver aspectos não só de natureza gramatical, mas, sobretudo, de natureza cultural, envolvendo questões relacionadas à tolerância do brasileiro em situações de não-pontualidade.

Utilizando conceitos tais como Competência Plurilíngüe, competência intercultural e intercompreensão entre línguas românicas, Melo e Rebelo buscam compreender como as imagens do português língua estrangeira, enquanto representações relativamente estáveis e partilhadas, constituintes do perfil sócio-afetivo dos sujeitos, influenciam as atividades de comunicação, porquanto influenciam também as suas percepções de diferentes competências. A análise do corpus leva as autoras a concluir que nem sempre as mesmas imagens homogêneas estão na origem dos mesmos comportamentos interacionais. Numa transposição para o contexto de sala de aula, tecem algumas considerações acerca da necessidade e utilidade de conhecer as imagens do Português que se constroem independentemente da vontade e intenções de seus falantes nativos.

No mesmo campo, Júdice toma as palavras de Jodelet e lembra que as representações orientam e organizam as condutas e as comunicações sociais e intervêm, entre outras coisas, na difusão e assimilação de conhecimentos, na definição de identidades pessoais e sociais, na expressão dos grupos e das transformações sociais. A autora vai recuperar, em uma pesquisa de caráter tanto diacrônico quanto sincrônico, imagens da sociedade brasileira detectadas em dois manuais de português para estrangeiros com um afastamento temporal de meio século entre as respectivas publicações. Ao observar cada um dos manuais como um todo textual específico, a autora aponta para o modo como  esses manuais configuram a realidade brasileira, em determinado mundo discursivo.          

 Ao abordarmos a questão do discurso, ou dos discursos produzidos, podemos tomá-los a partir da ótica do sujeito que os produziu e do contexto em que foram produzidos, como no artigo de Júdice ou, por outro lado, podemos colocarmo-nos sob a ótica do seu leitor e do contexto em que esse leitor se aproxima dos textos em questão. Neste caso, encontra-se o artigo de Trouche, que se propõe a apontar estratégias de leitura para uma compreensão crítica dos enunciados de textos de gêneros diferentes, permitindo que o leitor seja sujeito de sua recepção e estabeleça um diálogo produtivo com os textos. O estabelecimento dessas estratégias tem como objetivo, segundo o artigo, facilitar a atividade de leitura e desenvolver a competência comunicativa dos estudantes de português como segunda língua e mostra que o modo como interpretamos o mundo através de seus diferentes gêneros discursivos é função da cultura em que estamos imersos e que essa mesma cultura influencia a produção discursiva tida como válida em determinado momento histórico, gerando, assim, um ciclo recursivo entre gêneros discursivos, leituras e contexto cultural.

Ao passar da área das representações culturais, através das imagens construídas pelo outro, para a das representações lingüísticas, através das estruturas em uso, encontramos o artigo de Kath, que aponta para a necessidade de se considerar o uso atual dos conectivos na concretização das relações de regência verbal nos verbos do Português. Esse uso, segundo a autora, encontra-se em fase de simplificação, com atribuição de mais significados possíveis a um menor número de conectivos do que aqueles previamente estabelecidos pela gramática. Ainda que a multiplicidade de valores semânticos das preposições e as diversas transitividades possíveis dos verbos possa, ao trabalhar-se com alunos de PLE, ser um dificultador do processo de ensino-aprendizagem, independentemente da nacionalidade e da língua materna desse aprendiz,  Kath elenca e discute as peculiaridades desses usos em situação de ensino de português a falantes de espanhol.

A meio caminho entre as representações mais centradas nos aspectos identitários e culturais e as representações visivelmente orientadas pela estrutura lógica e gramatical da língua, encontramos o artigo de Zampietro, que aponta para o surgimento de um novo paradigma no ensino de línguas, paradigma esse que dilui as fronteiras entre as disciplinas em busca de uma compreensão mais abrangente do indivíduo, da língua e de como esse indivíduo aprende/adquire essa língua. O objeto específico do artigo foca-se na conjugação verbal e enfatiza a necessidade de o livro didático constituir um repositório de oportunidades de uma interlocução mais simétrica, na qual o aluno tem o papel de interlocutor real e não mero receptor de informações de um professor. Ainda que reconheça que o pensamento complexo, defendido por Edgard Morin e usado como base e princípio do enfoque dado ao ensino da conjugação verbal no artigo, não dispõe de uma epistemologia concluída, a autora defende a utilização de seus princípios no processo de ensino-aprendizagem de uma língua estrangeira, dando exemplos encontrados em livros didáticos de português para estrangeiros publicados no Brasil.

Sem se orientar pelos livros didáticos, mas, especificamente, pela prática de sala de aula, encontramos dois estudos de caso, que elegem, por um lado, a conduta dos falantes nativos como repositório discursivo-pragmático a ser oferecido aos estudantes estrangeiros na sua busca de adequação ao contexto de uso do Português: Meyer e Osório; por outro lado, Rebelo e Meyer centram-se na conduta dos estudantes estrangeiros em interação entre si e com o professor falante nativo de Português para revelar os eventos de negociação de forma e sentido que operam mutuamente para construir conhecimento em PL2.

Meyer e Osório adotam um viés lingüístico através do qual estabelecem distinções necessárias entre L2 e LE por uma série de factores de afastamento, nomeadamente a imersão linguística, o contexto, as motivações diversas e finalidades de aprendizagem da língua. No artigo, cruzam-se, além disso, conceitos de polidez estabelecidos de forma absoluta pelos teóricos que são confrontados com as suas atualizações em cada uma das variedades de português consideradas, as do Brasil e de Portugal. Esse cruzamento segue, em paralelo, com o estudo contrastivo das formas lingüísticas em cada uma das variedades, levando a conclusões que extrapolam o simples uso de formas de agradecimento e chegam a delinear o tipo de cultura em que cada uma das variedades se encontra imersa e que corresponde portanto a diferentes possibilidades de contextualização das informações para os usuários da língua, levando-os a eventuais inadequações quando se trata de falantes estrangeiros.

Rebelo e Meyer partem de experiências de sala de aula para discutir os conceitos de correção e erro. Segundo as autoras, esses conceitos devem ser levados em conta pelos professores e devem ser apresentados a futuros professores para reflexão, no intuito de todos melhor compreenderem a produção discursiva de estudantes de Português como Segunda Língua para Estrangeiros (PL2E) em geral, pela consideração de exemplos de interação entre estudantes estrangeiros de português em imersão no Brasil. No artigo, são apresentadas, inicialmente, definições estabelecidas para cada um dos conceitos e essas definições são postas à prova ao se analisarem textos produzidos em interações entre estudantes e a professora e recolhidos em logs de chat realizados como tarefa de aula de PL2E. Ao longo da análise recorre-se a categorizações oriundas dos estudos sobre Foco na Forma como meio de instrumentalizarem-se tanto os professores - para uma melhor compreensão das estratégias de que lançam mão os estudantes para construir conhecimento na língua alvo -  como os alunos, no sentido de serem instigados a desenvolverem essas estratégias de forma consciente e produtiva.

 Souza e Gama, por sua vez, englobam, num mesmo texto, reflexões sobre a utilização do livro didático em sala de aula de PL2, sobre o material de caráter autêntico usado pelo professor além do manual e sobre a própria prática do professor de PL2 que deve visar a uma abertura metodológica tanto no que concerne os instrumentos utilizados para atingir a aprendizagem da língua alvo pelos estudantes estrangeiros como no que tange os processos de ensino e avaliação do desempenho do aluno em questão. São elencadas sugestões de abordagem tanto para aspectos estruturais da língua como para aqueles mais ligados à adequação pragmática no uso, tentando, assim, abranger de forma condensada os principais aspectos da dinâmica de ensino-aprendizagem do PL2.

Ferreira da Silva encerra este conjunto de artigos alertando para o fato de que não se pode segregar língua ou cultura, cultura ou identidade, identidade ou contextualização, pois através desses elementos, persegue-se uma maior eficiência na aprendizagem de uma língua estrangeira. Assim, contextualizar é considerar o aspecto multifacetado do processo de ensino-aprendizagem de PL2, onde a língua é mais do que um sistema de regras incluídas em manuais e funcionando em estruturas lógicas maiores. Na língua, essas estruturas encontram-se atualizadas, diariamente, pelo conjunto de falantes que a utilizam como meio de comunicação e expressão, tenham eles utilizado-a como primeiro canal de acesso ao mundo circundante, estabelecendo um contexto cultural e social de significação, ou estejam, já adultos, buscando acessar um novo contexto cultural através dela. Por tudo isso, a língua revela-se, também, como produto desse contexto cultural e aponta, em suas representações, para as especificidades de uma determinada cultura. As representações, por sua vez, nos mostram que cultura é mais do que os estereótipos adquiridos, indo ao encontro de visões como a de Torres e Meyer, que propõem abordar a sociedade brasileira fora da “patologia do atraso” (Villas Bôas, 2006), exemplo de olhar exterior e negativo que sobre ela têm até mesmo os que nela se originaram, e passar, então, a enfocá-la com um olhar compreensivo que engloba, ao mesmo tempo,  concepções variadas do ponto de vista do falante de português. Ponto de vista este que não é uno nem indivisível, que ultrapassa fronteiras, que atravessa territórios os mais variados e que recupera, para seu próprio bem, a proveitosa reflexão sobre o homem e a sua natureza, que tem na semelhança – não na igualdade dos indivíduos – o seu penhor de existência, segundo as palavras de Barcellos da Silva.

 

 

 

 

 

 
 
 
   
     

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